quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Rebeldezinho


Um dia resolvi ser rebelde, mas não queria ser um meio rebelde ou um rebeldezinho sem causa. Se era para chocar alguém, que fosse algo de primeira, de caso pensado e argumentado, de modo que eu pudesse dar resposta completa com cabeça, umbigo e pé, para a eventualidade de algum conservador, opa!, reacionário, essa uma palavra bem na moda daqueles dias, seja lá o que fosse que significasse, viesse me questionar.
Os meus amigos todos tinham causas, das quais eu discordava na quase totalidade, o restante do todo apenas fugia da minha compreensão, por isso não discordava completamente. Já poderia me rebelar contra essas razões alegadas por aqueles cabeludos que usavam bolsinhas a tiracolo e calça jeans, de preferência de marcas gringas, para protestar contra o imperialismo ianque, mas eles eram amigos e não tem muito gosto protestar contra os protestos dos amigos, temos que protestar contra seus inimigos. Mas eu não tinha nada contra os ianques e adorava minhas calças jeans fabricadas na periferia de Fortaleza e estampadas com etiquetas em gringuês sem sentido.
Os caras iam a passeatas, gritavam palavras de ordem, pichavam paredes de cemitérios escondidos pela madrugada, mas com letrinhas pequenas e bem traçadas de bons universitários para não enfeiarem demais a cidade, enquanto eu os esperava na esquina cuidando da garrafa de cachaça comprada com as moedas cotizadas da gang de salvadores do mundo. Aquele negócio de pichar muro só para dar trabalho aos pobres coitados da limpeza pública e, ainda por cima, obrigar os vizinhos a darem de cara com aquelas frases indecifráveis para quem não lia jornal e cujas discussões mais profundas referiam-se ao ataque da Tuna Luso no jogo de domingo pela terceira divisão do campeonato nacional, não fazia sentido para mim. Eles que ficassem com seus protestos enquanto eu bebia o mais que conseguisse, ficando com a dose maior de tatuzinho. Eles que cuidassem de seu socialismo raso enquanto eu, egoisticamente capitalista, valorizava mais minhas parcas moedas depositadas naquela garrafa.
Lá vinham eles, gargalhando baixinho para não acordarem a vizinhança, correndo como se fugissem e eu de longe, sentado ao meio fio, garrafa-tesouro sob a axila, vendo que ninguém os seguia. Me lembravam as brincadeiras de bandido e mocinho que praticava com meus irmãos, poucos anos antes, no quintal de casa. Os bandidos odiavam os mocinhos que odiavam os bandidos, trocávamos sementes de mamona com nossas baladeiras, mirando para acertar a testa, nos engalfinhávamos até ouvir o grito da mãe para o banho e a sopa que já estava na mesa. Todos sentadinhos lado a lado, comportadinhos e bandidos misturados com mocinhos. Aquela guerra travada em letras pretas ou vermelhas nos muros brancos das propriedades públicas por moleques e molecas recém saídos dos cueiros acabava na mesa do boteco mais próximo, capitalistas e vermelhinhos em confraternização alcoólica. Não me fazia qualquer sentido.
Mais indecifrável ainda eram as frases deixadas. Por falta de leitura dos jornais ou incompreensão das últimas notícias sobre economia ou política, inventavam qualquer coisa, como a inesquecível “quem ama não mata, trepa”, vindo à cabeça de um deles depois de assistir à novelinha na noite anterior enquanto ouvia a mãe fofocando sobre a vizinha que tinha varizes mais largas que o Rio Guamá.
Precisava encontrar um mote, uma razão pra me rebelar. Estava ficando chato ser filho de um burguês que não batia nos filhos, que não deixava faltar comida, livros ou passagem para o ônibus, que perguntava dos problemas da escola e das namoradinhas ocasionais, enquanto me cercava de suburbanos de pais separados, mãe alcoólatra, irmão traficante de maconha, irmã desfrutável pela turma do bairro, que andavam de sandálias de borracha para não gastarem o único tênis. Eles tinham lá suas razões, mesmo assim incompreensíveis por quem aprendera desde cedo que o maior responsável por sermos quem somos  somos nós mesmos, não o prefeito corrupto, o vereador inoperante ou o professor preguiçoso, mas eu, mesmo lendo os livros que eles indicavam, freqüentando as reuniões que promoviam, debatendo os caminhos do comunismo na Albânia e assistindo àqueles intermináveis e chatos filmes de arte alemães, não conseguia me deixar convencer, lá no fundo do desejo, por aquelas idéias. Eu estava longe de ser eu naquele grupo. Mas eles eram amigos e amigo é uma coisa difícil e rara como eles vaticinavam a cada oportunidade ou a cada porre mais emotivo e eu não queria me dar ao luxo de esnobar a amizade daquelas pessoas especiais. A merda é que eles tinham uma ideologia e uma causa para rebelarem-se e eu, não. Os invejava por isso.
Pensei em me rebelar contra a faculdade. Aliás, o pessoal das ciências humanas fazia um protesto por semana contra a escola ou os professores ou os funcionários ou a gráfica ou o preço do sanduíche  da lanchonete do básico ou do calendário... Sempre arrumavam um motivo. Numa semana reclamavam da falta de aulas; na semana seguinte protestavam contra o excesso de aulas. Não davam folga. Já o pessoal das exatas vivia com o tô nem aí ligado. Só protestava quando o carro de som das humanas parava, altos falantes saindo fumaça, em frente a algum laboratório em que fazíamos algum experimento científico ou técnico. E lá ia eu mudando de lado. À noite saía para os botecos ou para me engalfinhar com alguma garota das humanas, de dia me juntava aos meus colegas das exatas para xingar os preguiçosos das humanas. Nessa hora, sim, eu protestava por mim. Cinco anos de engenharia são muito tempo para se perder com a barulheira infernal de quem jamais seria jubilado porque na universidade federal ninguém era jubilado, verdadeiros estudantes profissionais, daqueles que conseguiam fazer um curso como Biologia em oito anos. Mas na hora de se formar comissão para ir à reitoria clamar contra os comícios do pessoal das humanas, eu era o primeiro a tirar o corpo fora. Ora, os caras eram preguiçosos, mas eram meus amigos, sem falar que nos cursos deles havia muito mais mulher, e bem mais gostosas, do que em todas as engenharias juntas. Eu não permitiria ser excluído daquelas companhias por causa de uns carrinhos de som à toa.
Poderia levantar bandeira contra o sistema público de transporte, aquele inferno de ferros barulhentos, calor, superlotação, impontualidade, vias esburacadas, preços exorbitantes, ainda mais para quem não ganhava um centavo que fosse pela força do próprio trabalho, eu. Lá vinha meu egoísmo capitalista se manifestando de novo. Não fazia o menor sentido esperar que o prefeito tomasse alguma atitude para melhorar a qualidade do transporte público baseado nas minhas queixas. Era minha personalidade pequeno burguesa exigindo que meu umbigo fosse o centro da cidade, mais tarde eu me preocuparia em ser o centro do mundo, quando eu deixasse de ser pequeno e me tornasse um grande burguês. Por outro lado, os apertos físicos e financeiros pelo qual passava por conta dos coletivos velhos, mal cheirosos e caros eram repetidos por outros milhares de citadinos e se eu empunhasse o estandarte da luta, meus amiguinhos esquerdistas adoravam a palavra luta para justificar suas reivindicações, poderia me tornar um marco na história da cidade, teria meu nome e foto estampados nos jornais, viraria um herói, talvez até fosse convidado para me candidatar a vereador, o mais jovem da capital, quiçá do país. Estava gostando da idéia. Depois de eleito, seria aquele que destruiria o  sistema de dentro dele, me tornaria um notável revolucionário e não um reles pichador de muros brancos.
Passei no Centro Acadêmico depois das aulas da manhã seguinte, peguei emprestados cartolina e pincel atômico, escrevi “abaixo os ônibus caros e ineficazes!” e me coloquei solitário no ponto de ônibus gritando palavras de ordem, xingando motoristas e cobradores e incitando os colegas para que fossem a pé ao invés de dar seu suado dinheirinho para os milionários donos das empresas. Sob um sol caatinguense e na fome do meio dia, ninguém me deu bola, a não ser a menina de pedagogia em quem dera uns amassos na sexta-feira passada e o trirrepetente de biblioteconomia, os dois mal ajambrados, cheios de erva nas idéias e olhos perdidos em algum ponto que eu não conseguia ver. Eu gritava e eles repetiam, ninguém nos dava bola, os ônibus continuavam enchendo-se e sacolejando enquanto nossa fome corroia o estômago. Minha fome era de falta de comida, a deles era por excesso de maconha. Duas horas da tarde, quem tinha que ir embora já havia ido, quem tinha que chegar para o expediente vespertino, já chegara e nós três, roucos e roxos de inanição, não conseguíamos mais adeptos. Baixei o cartaz, chamei a um canto meus dois solidários protestantes, contamos as moedas e as poucas cédulas e fomos para o boteco mais próximo, onde conseguimos pagar duas cervejas, gastando as passagens de volta para casa. Tive que andar sete ou nove quilômetros, segundo meus cálculos bêbados, de volta para casa. Acabava ali minha vida de rebelde contra o sistema viário e o transporte coletivo deficiente.
Ainda não acertara na rebeldia perfeita, mas ficava a experiência e o aprendizado da frustração. Para destruir as instituições estabelecidas, é necessário primeiro montar uma agremiação de opositores sérios e comprometidos. Ou você se espinha sozinho e não consegue resultado ou se junta a mais quinhentos iguais a si e luta em igualdade de condições. Eu e meus dois escudeiros, a pedagoga e o bibliotecário, não tivemos sucesso em nossa investida. Eles não me servem mais, por isso os descarto das ações futuras. Essa foi mais uma lição aprendida dos meus amiguinhos esquerdistas. Um deles, um pouco mais letrado que a quase totalidade, me ensinou essa máxima leninista e como duvidar de sua eficácia se Lênin tornou-se o chefe todo poderoso do maior país do planeta e ainda conseguiu juntar mais dezessete outros países no seu império? Quando um correligionário deixa de ser útil, livremo-nos dele antes que se torne um peso. Sou capitalista, pequeno burguês, mas não sou burro, consigo aprender o que há de melhor nos socialistas, que não são meus inimigos, bebemos cachaça juntos, estudamos juntos e até nos namoramos de vez em quando. Meus dois parceiros ocasionais na estréia de rebelde com causa estavam oficialmente descartados das ações futuras, a não ser que tais ações atinjam a magnitude a ponto de não mais poder controlar quem entra e quem sai do grupo. Parto, então, para a próxima razão de rebeldia.
À noite, no boteco em frente à universidade, e toda universidade que se preze tem que ter pelo menos um boteco em frente, a turma das humanas discutia, entre um copo de cachaça e uma rara cerveja, sobre os problemas do mundo e sobre o que protestariam. Mais por amizade a eles e pelas coxas delas e pela birita compartilhada, eu me infiltrava e ouvia os defensores de protestos contra a nova política egípcia depois do assassinato de Anwar El Sadat, agora mais próxima dos imperialistas americanos; os que preferiam colocar-se ao lado da esquerda angolana que lutava contra a ditadura; havia quem defendesse a libertação de Mark Chapman e os beatlemaniacos que pregavam a pena de morte para o assassino de Lenon com direito a passeata em frente ao consulado americano; ganhavam os que defendiam a condenação dos Estados Unidos por terem boicotado a Olimpíada de Moscou. Eles resolvendo os problemas do mundo no boteco pareciam comigo mesmo no banheiro, local onde eu governava o mundo, acabava com a fome da Etiópia, devolvia o Nepal ao Dalai Lama, devolvia Cuba aos descendentes de Batista, dava voz de prisão perpétua aos assassinos do soldado Kozel. Eles levavam a sério suas pregações tanto quanto eu achava perfeitas minhas sentenças para o mundo. Caí na besteira de falar isso abertamente. Um magrelo de bata indiana e sandália de couro de bode, um medalhão dos anos setenta com o símbolo do Flower Power pendurado no peito jogou longe sua bolsa de tiracolo junto com seu pacifismo, atirou-se por sobre a mesa caindo em meu peito, arremessando-me ao chão sob seu pouco peso e muita força. Garrafas voaram, cacos de vidro se espalharam pelo salão, gente puxava o cabelo de gente, uns empurram, outros puxam, o magrelo me soca a cara atônita e assustada, depois tenta me estrangular. É retirado à força de sobre mim pelo bibliotecário que passara a me ter como líder. Talvez ainda não fosse a hora de descartá-lo de minha hoste de rebeldia em busca de causa, mostrava-se ainda útil. Com o nariz sangrando e o orgulho em frangalhos, me vi levantado e empurrado para fora do bar pela turma dos panos quentes. Começam as discussões de quem estava certo, quem provocara, de quem era o reacionário. Refeito do susto, mas não da adrenalina, tentei partir para dentro do bar e resolver as questões do mundo sob a força de meus punhos virgens de luta. Me empurro para dentro, me empurram para fora num balé modernista bêbado sob a trilha sonora de gritos e histeria coletiva. Minha sandália de plástico do pé direito se perdera, me desprotegendo do caco do fundo de uma garrafa. Não senti a dor do corte até o grito de pavor de alguma menina de Letras me alertar para a poça de sangue que se formava. Os estudantes maltrapilhos de calças de morim branco esqueceram a solidariedade pelos feridos, afastavam-se de mim com medo de terem suas vestes maculadas pelo meu sangue reacionário ou libertário, dependendo do ponto de vista. Pela falta do que fazer, qualquer palito de fósforo vira poste. Dois menos angustiados me jogaram na carroceria de uma picape, no banco, nem pensar, poderia sujar o carro, e rumaram para o hospital universitário a toda velocidade, atravessando sinais fechados, inúteis naquele início de madrugada de uma quarta-feira. Eu via nos seguindo uns dois carros e algumas motos, desvairados cidadãos penalizados com o ferido à morte pelo caco de uma garrafa na sola do pé direito ou talvez apenas curiosos ou possíveis arautos das más novas aos companheiros que voltaram para a bebida e as maledicências contra mim, o ausente.
A ajuda, no fundo, é mais para satisfazer o ego em formação, principalmente nessa fase juvenil, do que propriamente para socorrer o necessitado, nessa oportunidade tive a constatação disso. Rangendo os pneus, pararam a picape na porta do ambulatório, os dois ocupantes da cabine saltaram correndo para dentro do prédio enquanto eu enrolava a camisa que retirara no pé lanhado, tentativa torpe de conter a hemorragia, que nem era mais tão grande. Os jovens têm a rapidez da regeneração dos tecidos e a coagulação num sujeito saudável como eu era, dá-se rapidamente, só não total porque o rasgo, além de largo, era profundo, mas não muito maior do que os muitos que tive quando moleque que corria descalço em terrenos baldios ou jogava pelada em campinhos cheios de tocos. Motos e carros foram parando atrás e a multidão esbaforida adentrava o hospital afoita por notícias, quanto piores, melhor, haveria mais dramas para contar aos ausentes. Eu, motivo daquele rebu, olhava entre atônito e divertido, a correria. Só faltava a garrafa de cachaça sob o sovaco para ficar igual às esperas na esquina enquanto os pichadores fugiam de polícias fictícias.
Como entraram, saíram, acotovelando-se na porta, em direção à carroceria ensangüentada. Dois de cada lado me levantaram nos braços. No meio da turba via o magrelo que me socara, mãos na cabeça como se a culpa de me deixar paraplégico o assaltasse. Paraplégico pareci quando fui levado para dentro do prédio e colocado com cuidado sobre a maca de ferro esquecida no corredor. Uma menina desmaiou ao ver a camisa vermelha em forma de atadura, outro, já bem alterado pelo álcool, sentou-se ao lado de uma enorme senhora de cabelos vermelhos que tinha no colo uma criança amarela de olhar vidrado e tentava consolá-la como se o destino da criança fosse a morte, um grupinho cercava e confortava meu agressor com palavras vazias. Fellini não faria mais engraçada e caótica aquela cena. Ouvia os gritos de um dos rapazes da picape, xingando a administração do hospital, a reitoria, os médicos e as enfermeiras. Meu caso era grave, como podiam eles me deixar agonizando sobre o metal frio, desassistido? No fundo eu gostava de ser o centro das atenções, embora um ou dois deveras me atendessem, os demais massageavam seus egos, salvadores de um moribundo. Não ri com medo de levar outro soco. Se era desgraça que eles queriam, falsa desgraça lhes daria. Passei a gemer, fazer caretas de dor. Primeiro a balbúrdia, depois a revolta com a chegada da polícia acionada pelos atendentes assustados. O cala boca, moleque daqui, o me respeita dacolá e o indefectível você sabe com quem está falando?, típico de quem tem ou acha que tem um pouquinho de pedigree social, seja o autor da bravata comunista, capitalista ou corintiano. Na época talvez até ainda funcionasse em alguma entrada de festa prive ou em batida policial, mas jamais num hospital tomado por adolescente tardios alcoolizados. Um policial segurou o braço do outro antes que a bolacha estalasse na cara do filhinho mimado de um rábula que ora fingia-se de advogado do alto de seu sétimo semestre do curso de direito. Mais dois policiais apareceram e o saguão do ambulatório foi esvaziado. O médico plantonista decretou que eu teria direito a apenas um acompanhante, os demais deveriam esperar na calçada. Entre ficar na sala silenciosa ou ficar na farra com a turma, quase todos saíram sem reclamar, ao lado da maca a pedagogazinha drogada que me havia acompanhado no protesto contra os ônibus coletivos. Me olhava com ar sem expressão, olhos fixos no meu queixo, não sei se por admiração ou porque suas pálpebras pesavam. Aliás, até hoje me pergunto se ela não permaneceu ao meu lado apenas para continuar sentindo o cheiro de éter que circula nos corredores de qualquer ambulatório antes de ser apoio.
Esvaziada a sala, ficamos eu, a pedagogo vidrada, a mãe com a criança amarela, um bêbado tentando equilibrar-se na cadeira de plástico e assento nada anatômico e a grávida que foi imediatamente colocada numa cadeira de rodas e levada além da porta de vai-e-vem. Pô, legal, nunca havia visto alguém ser levado por cadeira de rodas dentro de hospital, a não ser em filmes de Hollywood. Algum progresso estava acontecendo no atendimento hospitalar abaixo do Equador. Mais uma lição que aprendíamos com os imperialistas ianques. Uma jovem médica, ou residente, aproximou-se da mulher com o bebê, falou baixinho, recebendo acentos positivos com a cabeça. Falava e recebia sins, a mãe nada dizia, apenas balançava a cabeça como um bonequinho de mola. A médica retirou-se, voltou logo depois com um comprimido na palma da mão esquerda e um copinho de plástico, daqueles que servem café, com um pouco de água na outra. Falava doce com a criança, abriu-lhe a boca, colocou o comprimido dentro e forçou a criança a beber a água. A mãe assistia como se nada ocorresse, como algo trivial. A médica ajudou-a a levantar-se e a acompanhou até a porta. Sem afeto, sem despedida, sem agradecimento, lá se foi a mãe com a criança aparentemente catatônica. Dois rapazes arrastaram o bêbado pela porta de vai-e-vem, sumiram e nunca mais os vi. Uma garota de cabelos desgrenhados veio à minha maca, prancheta e caneta nas mãos, fez perguntas sobre nome, endereço e mais um monte de coisas que não sei que relação teriam com meu pé cortado, que começa a arder, uma dorzinha já bem conhecida. Perguntou se a pedagogazinha inexpressiva era parente, respondi que era amiga, embora até hoje não saiba seu nome. Me fez deitar, colocou a prancheta sobre meu peito, enfiou a caneta nos cabelos e empurrou a maca pela porta de vai-e-vem, pedindo que a pedagoga me esperasse ali. O resto foi igual a qualquer atendimento de bêbados e esfaqueados, com a diferença que quem me atendeu não foi um médico graduado, mas um quase imberbe estudante de medicina. Parecia um piloto fazendo check-in da aeronave antes da decolagem, medo de errar e eu com medo de que ele não soubesse o que estava fazendo. Jamais fui um bêbado violento ou um paciente impaciente. Sem protestar ou querer ensinar o médico a praticar seu dever, me resignei a receber qualquer cuidado que me desse. Primeiro a picada da seringa de anestésico, a limpeza com álcool iodado e éter ou sei lá o quê, depois as pontadinhas sem dor da agulha de sutura e as ataduras. A última etapa de um bêbado acordado se manifestava, o sono.
Me colocaram sentado, me colocaram em pé e me deram ordem de ir embora. A enfermeira me deu o ombro para que eu saltitasse com o mínimo de equilíbrio até a sala de espera onde nem mesmo a pedagoga me esperava. Bela acompanhante me arrumaram. Ali, escorado no balcão, me vi abandonado. Cadê a cadeira de rodas nessas horas? Cadê aquela turma que me dava apoio? Saí do prédio pulando numa perna só esperando encontrar a turma, a picape ensangüentada. Ninguém. Nem uma moeda no bolso. Madrugada tépida me cercando, sonolência alcoólica e uma resolução a tomar: como chegar em casa? O jeito foi aceitar a ajuda do taxista também sonolento.
Morava com meus pais e cinco irmãos no terceiro andar do prédio de três andares, sem elevador. Subir aquela montanha de degraus num pé só não foi missão fácil, mas meu senso de honra e nem o taxista que já não me dava o ombro, apenas fazia pressa para receber sua féria, me permitiriam dormir ao pé da escada. Lá fomos os dois, degrau a degrau, até a porta do apartamento. Às três da madrugada minha mãe já havia desistido de me esperar acordada, mas também não me dava cópia das chaves, com medo que aparecesse de surpresa com aqueles meus amigos esquisitos. Até confessara, certa vez, que se soubesse antes que a faculdade fosse aquele antro de jovens desajustados, preferia me ver ralando a barriga em algum balcão de loja de tecidos. Não sei quantas vezes tive que socar a porta, de três em três pancadas, até que ela fosse aberta pela minha mãe descabelada e de camisola, cara de enfado e decepção. Até fez uma carinha de piedade ao ver a atadura, , não mais de dois segundos, logo substituída por uma de zanga por ter que desembolsar o dinheiro da feira para pagar a corrida. Não perguntou o que houve, não ofereceu remedinho, não deu ajuda para me locomover, apenas a ordem de não deitar sem tomar banho. Nem consegui tirar a calça, desmaiei sujo de sangue e sujeira do piso do bar na minha cama arrumadinha.
Os episódios da vergonha em levantar e encarar a família, os esporro tomado do pai, as gozações dos irmãos e a dor física do pé são descartáveis. Quem quer que tenha aprontado uma daquelas ou até menores sabe bem como são essas coisas. Mas os dias de molho me fizeram questionar o sistema público de saúde. Meu pai tinha um plano de saúde bancado pela repartição e que lhe dava um atendimento diferenciado, dada a certeza dos médicos conveniados que seus pacientes até poderiam morrer, que seus honorários estavam garantidos, mas eu, já maior de dezoito anos, não podia mais contar com as benesses. Não havia sido grave meu ferimento, qualquer ambulatório resolveria o problema, porém o fato de haver tratamentos diferenciados me enervava. Independia de minhas posições políticas, que eu sequer sabia se as tinha, era uma questão de respeito e legalidade, já que a Constituição Federal pregava a igualdade entre os cidadãos. Com meus livros na cama, olhos no telejornal e a leitura de jornais, que andava negligenciada, notei que a tal igualdade não passava de um slogan da Revolução Francesa, arremedado pelo mundo ocidental por ser bonitinho, contudo a desigualdade, inerente à condição humana, era praticada com mais verdade.
Embora tivesse sido bem atendido e devidamente medicado, luziu diante dos olhos minha primeira causa mais consistente de protesto.
O telefone era artigo caro e de luxo. Dava um ar de riqueza dizer que se tinha telefone em casa, algo que não fazia parte da minha realidade, quem quisesse saber de um de nós ou escrevia uma carta ou teria de visitar-nos. Eu torcia para que algum dos amigos da faculdade aparecesse, fosse para massagear meu amor próprio com um afago de preocupação pelo meu estado, fosse para me trazer notícias da faculdade. Estava perdendo aulas e conteúdo, tentava compensar nos livros, coisa difícil em se tratando de conteúdos técnicos. Somente no terceiro dia apareceu o professor de análise de sistemas, um cara legal, pouco mais velho que a média de seus alunos, que costumava sair conosco para as farras. Detentor de um salário razoável, tinha que se precaver “esquecendo” a carteira em casa ou seria por nós explorado. Morava no prédio atrás do nosso, o que me fez desconfiar de que aparecera apenas pela proximidade e não pelo interesse que eu gostaria que tivesse pela minha saúde.
Minha mãe o recebeu cheia de rapapés e deferências, mandou meu irmão caçula à mercearia para comprar refrigerante, não serviria a ele aquele refresco de laranja aguado. Serviu bolinho, fizera esperar na sala enquanto me ordenava que me banhasse e fizesse a barba, além de vestir roupa limpa, não era todo dia que recebíamos um professor universitário, um doutor em casa. Mal sabia ela que aquele doutor era nosso financiador de cachaça e parceiro dos maconheiros. Bem que a erva me atraía, mas era muito covarde para me permitir sair mais da realidade do que me fazia a cachaça. Acompanhava os caras, aprendi a bolar baseado com eles, destrinchar os camarões, mas não encarava fumar de forma alguma.  No fundo, sem dizer a ninguém para não correr o risco de ser banido do grupo, apoiava a criminalização dos usuários tanto quanto a dos fornecedores. Se uma pessoa que compra um produto roubado pode ser punido por receptação por ser financiador do crime, para mim o usuário também deveria ser punido, por ser o financiador do crime de tráfico. Assim fazia-se minha aversão ao professor a quem apenas explorava financeiramente em troca de ter de aturá-lo como criminoso.
Não tínhamos intimidade, a proximidade do quarto me inibiu. A conversa começou truncada, um tentando fazer com que o outro falasse muito isentando-se assim da obrigação de puxar assunto. Como de praxe, ele perguntou da saúde, pediu para eu contar como havia sido a quizumba que resultara no ferimento, quem estava presente, enfim, detalhes. Ele vencia o primeiro round, perguntava e eu falava, o máximo de detalhes, não permitiria o silêncio constrangedor. Depois os detalhes da recuperação, a solitude de enfermo no quarto com livros e o radinho de pila. Quando percebeu que esgotava meus assuntos, com jeitinho foi entrando no motivo que o trouxera a meu quarto.
Se eu sabia que o pessoal de Letras tinha um jornal semanal? Sim, sabia. Eu lera algum exemplar? Sim, sempre recebia e lia. Gostava dos assuntos das matérias? Alguns, sim, outros, mais voltados para os cursantes de Letras eu não entendia ou não me interessava. E daqueles de cunho social, me interessavam? Ah, claro, quem não se interessaria em discussões sobre temas que diziam respeito à comunidade acadêmica, à cidade, ao estado, ao país e, quiçá, ao mundo? Esta era a resposta que qualquer universitário daria e, provavelmente dará. Tudo ensaiadinho, bonitinho, tudo muito arrumadinho. Independentemente de sua coloração política e de suas simpatias partidárias, o universitário, que julga-se o senhor de toda a temática em voga, tem por obrigação dizer que lê jornais, que se informa da sequelas sociais e, pior, que é de esquerda. Tá, não é bem assim, sempre existiram e existirão os de direita, mas naqueles tempos pouquíssimos teriam coragem de admitir. Já acontecia sob os panos vermelhos da universidade pública uma caça às bruxas reacionárias. Sim, muito mais que hoje direita era xingamento e reacionário era a consubstanciação da detratação. Pior que xingar a mãe do opositor era chamá-lo de reacionário. Ironicamente, ao perguntar a qualquer um o significado de reacionário, ouvia-se um discurso de esquerda sem a devida explicação. Em outras palavras, quem sabia não se manifestava. Qualquer um tirava de letra se chamado de filho da puta, a minoria tinha fleuma para assimilar um “reacionário!” pelas fuças. Eu era apenas mais um que não queria a pecha maldita. Aliás, sequer admitia ser de direita em voz alta. Talvez por ainda não ter percebido que o era.
Pois bem, ele já percebera que eu sabia escrever, tinha boa ortografia, sabia me expressar, pelos jornais e revistas espalhadas pelo quarto via que me mantinha informado, mal sabendo que aquilo se dava por não poder ir à farra com o pé rasgado e por não conseguir estudar sozinho análise de sistemas. Tinha uma proposta a me fazer, em nome do Centro Acadêmico de letras, uma coluna no jornal.
Pego de surpresa, já me vi divagando mentalmente pela notoriedade que me daria uma coluna semanal em que poria para fora minha revolta ainda não descoberta, minhas idéias para solucionar tudo o que havia de errado no “sistema”. Não me questionei no momento, embriagado com a possibilidade que as palavras me dariam, por que ele, professor de matéria exclusiva de engenharia elétrica, vinha como dos acadêmicos de Letras. Inconsequentente, como bom pós-adolescente, topei na hora. Qual o tamanho do texto? Que assunto deveria desenvolver? Que dia deveria entregar o texto? Era o máximo que me permitia pensar, na parte prática da proposta.
Sugiro eu daqui, rebate ele dali, punha no papel as idéias que iam aparecendo, procurava me identificar com um dos tópicos propostos, até que ele argumentou que eu vinha de uma experiência traumática, violenta a ponto de me deixar de cama, o nariz ainda inchado pelo soco e o pé ardendo pela inflamação do corte – pensava eu que ele sugeriria que eu falasse sobre a violência urbana – por que não falava do sistema público de saúde, a começar pelo hospital universitário? Com a alma de herói ferido em batalha, achei ótima a sugestão. Começaria imediatamente. E assim o fiz, bastou ele despedir-se.
Minha mãe, ouvido encostado na porta, entrou no quarto orgulhosa do filho escritor que caíra nas graças do professor doutor e que se tornara colunista de jornal. Teria eu trabalho publicado na universidade, mal sabendo minha querida senhora que jornaleco de centro acadêmico não era considerado trabalho universitário.
Peguei os jornais em busca das colunas assinadas, pegar algum macete. Primeira dica, os autores, via de regra, tentavam mostrar-se neutros, mais analíticos que opinativos. Em tempos de medo, melhor não cutucar as onças aboletadas nos palácios com vara curta. Conhecendo o jornalzinho em que escreveria, tal dica deveria ser seguida às avessas. Nós, universitários, temos que ter espírito de mártir, somos os potenciais heróis em busca de campo de batalha. Além do mais, meu ego dizia que eu tinha que aparecer, ser bem virulento, violento contra as instituições estabelecidas. No fundo eu não achava isso, mas de tanto ouvir elogios ao desprendimento de La Marca, Marighela e Guevara, que enrolara seu diploma de doutor médico para salvar o continente do julgo imperialista, bem poderia eu me colocar nesse panteão, não com fuzil e granada na mão, jamais havia tocado num e nem o serviço militar me aceitara pelo físico minguado, mas com a força da mais poderosa das armas, a palavra. Minha pena – ah, o romantismo. Minha proximidade com a pena de escrever era menor do que a com o fuzil, este, pelo menos, eu já vira passar à minha frente – não teria pena – e a alma poética, ai, ai – daqueles a quem atacaria e feriria de morte.
Maquitolando, troxe a velha Olivetti e uma resma de papel para meu lado na cama e pus-me a tiquetaquear as teclas com fúria e pressa, sem rascunho, direto ao texto final. Minha ignorância não me permitia ver que nada sabia sobre o sistema público de saúde. Jamais adoecera, não lia as informações sobre a administração dos hospitais, seuqer sabia os nomes do ministro e dos secretários. Menos de uma hora no ambulatório do hospital universitário, bêbado e cheio de adrenalina no sangue era o mais próximo que chegara do sistema. E aí centralizei meu artigozinho de estréia. No decorrer da minha vida adulta tenho visto muitos artigos como aquele em grandes veículos de comunicação de massa, escritos por gente despreparada que se baseia no achismo e em experiências mal sucedidas suas e de amigos para dissertar sobre os mais variados temas. Nessas horas me vejo voltando no tempo e me envergonho pelo despreparo de tais profissionais. Talvez eles não tenham tido a mesma experiência rasa e curta que eu no trato com temas espinhosos e complexos e, muito menos e principalmente, com a autoanálise que os permita perceber o quão adolescentes são em suas matérias.
Não havia o que criticar. Fora prontamente atendido, recebi os cuidados que meu casinho à toa necessitava, estava em tranquila recuperação. Mas precisava enfeitar o pavão. Preenchi duas laudas com críticas vazias à falta de medicamentos, ao despreparo dos estudantes e médicos, até da falta de higiene e das roupas encardidas dos enfermeiros eu falei, embora não tenha visto nada disso. Enfim, um amontoado de falácias, bem do jeitinho que os esquerdistas das humanas gostariam. Estava preparando meu segundo encontro com um doutor, sem saber.

2 comentários:

  1. Marcos, pode acreditar: qualquer um de nós, contemporâneos da sua geração, nos sentimos um dia rebelde sem causa. E a nossa geração, especificamente, talvez tenha sido o nascedouro do que temos hoje, ou seja, este processo infindável de alienação política que culminou com os resultados tristes da era petista.

    Parece que não soubemos fazer e continuamos a conviver com uma maioria surda.

    Vai aqui meu louvor ao seu texto, um desabafo sem preconceitos e sem nada a esconder. Já percebi qual sua motivação para este novo blog.

    Abração.

    ResponderExcluir
  2. Caro Marcos

    Sempre nos brindando com Textos que nos permitem viajar no Tempo e Refletir sobre nosso papel para a grandeza do País e seu Povo.

    Não fui uma jovem rebelde, nem lutei por causas humanitárias. Só com o amadurecimento do passar dos anos consegui ter o senso crítico e hoje, sei do meu papel como cidadã, buscando sempre a Verdade dos Fatos e poder ser uma agenciadora da consciência política pois sem ela continuaremos a ser Cidadãos Alienados e presa fácil dos Politiqueiros de Plantão.

    Marisa Cruz

    ResponderExcluir